Mauro Graeff Júnior
Publicada em 01/04/2012 às 08:00
São Paulo (SP)
A barriga aumentou, a barba está
recheada de fios brancos, a passada sobre o ringue é lenta e a
memória às vezes falha, mas Maguila segue Maguila: polêmico,
engraçado, caricato. Mesmo tropeçando no português, se posiciona
sobre tudo, ora às gargalhadas, ora frisando a testa mostrando
seriedade.
Longe do esporte, afastado dos
holofotes, Maguila leva uma vida tranquila. Depois de largar o boxe
foi comentarista de TV, secretário municipal de esporte e
humorista. Recentemente lançou um CD de samba e candidatou-se a
deputado federal por São Paulo. Tudo agora é passado. O
ex-boxeador, primeiro brasileiro campeão mundial dos pesos pesados,
leva uma vida de aposentado.
Um dos poucos compromissos
é dar palestras, que quase sempre viram um show de humor pelo seu
jeito engraçado de falar. Também sai de casa para ver o projeto
coordenado por sua mulher, a advogada Irani Pinheiro. Lá, ele calça
botas e luvas para treinar.
O estilo durão só não o permite
aceitar o Mal de Alzheimer, doença diagnosticada ano passado.
Maguila, 53 anos, não aceita ter “Mal de Azar”, como se
refere. Até duas semanas atrás negava-se até a tomar os
medicamentos.
Em entrevista
ao LANCENET!, ele fala sobre a saúde, critica
o UFC, ignora Anderson Silva, fala da carreira de cantor e admite
que concorreu a deputado porque ganhou dinheiro do partido.
Ah! Comenta até a gordura de Adriano, que não deu certo no seu
Corinthians.
Maguila fala da sua vida
fora dos ringues e critica o UFC
Você
foi candidato a deputado federal. Ainda tem pretensões
políticas?
Deixa eu explicar. O partido me
deu R$ 50 mil para eu sair candidato. Mas nunca tive pretensão em
ser político, nem quero ser político. Primeiro porque não tenho dom
para isso, não sei fazer política. Mas deram dinheiro.
Aceitei.
Você fez campanha? Porque
você teve 2.951 votos...
Não. Sabe o que fiz? Ficava na
padaria lá perto de casa tomando uísque com Red Bull, mais nada.
Minha campanha foi essa. Acho feio ficar pedindo as coisas para os
outros. Quem quer as coisas tem que trabalhar.
E sua carreira de músico,
como está? (Maguila lançou CD de samba em
2009).
Gravei um CD com um samba da hora,
viu. Inclusive tem uma música inédita que é Vida de Campeão. Eu
discuti com o Raul Gil. Ele começou a me dar muita ordem, me mandar
(o filho de Raul Gil era empresário de Maguila). Eu disse:
“Já fui muito mandado. Hoje não aceito mais ser
mandado.”
Você ainda
canta?
Não, hoje não. Se aparecer alguém
legal para me empresariar, aceito. Mas estou muito velho para ficar
tomando dura.
O que você faz
hoje?
Estou dando palestra. Viajo o Brasil
inteiro. Conto minha vida. Minha vida já é uma palestra, com
sofrimento grande. Conto quando cheguei do Nordeste, como comecei
no boxe...
O que você está achando
do momento do boxe no Brasil?
Modéstia à parte, não tô vendo
ninguém aparecer. Mas deve ter muito talento por aí. Não tenho
visto muito. Ninguém divulga. Só tenho visto falar desse
UFC.
Você acompanha o
UFC?
Não, não acompanho. Vi uma vez só
para nunca mais ver. Para mim, aquilo é briga de rua. O cara joga o
outro no chão e bate até sangrar. Se o juiz não separar, mata o
cara. Eu não gosto de assistir. É briga de rua, não tem técnica
alguma. Não assisto. Não por desprezar. É por que eu não gosto de
violência. Não gosto de ver tirar sangue do outro, de arregaçar o
outro. Naquilo deixam bater até matar o cara.
O UFC está provocando a
queda do boxe?
Nada a ver. Não está influenciando.
Porque no UFC você vai na rua, paga um cara qualquer e coloca para
lutar, sem técnica. O boxe você tem que ficar três anos no amador.
Para passar ao profissional, leva um tempo. Esse UCF não. Você pega
um cara na rua e pergunta se quer lutar por dinheiro. O cara tá com
fome vai lá e luta. Acaba morrendo. Não tem preparo físico nem
psicológico.
Mas o MMA mistura várias
artes marciais, inclusive o boxe.
Nada disso. É tudo mentira. O boxe
não bate assim (faz sentido de soco para o chão), não dá
cotovelada. O boxe não tem essa violência.
Você conhece o Anderson
Silva?
Conheço de nome, só. Nunca encontrei
com ele. É um universo muito diferente do meu. Dizem que ele é o
destaque, o campeão. E nem me interessa encontrar. Porque para mim
não é esporte. É uma briga de rua. E briga de rua não me interessa.
Modéstia à parte, eu gosto é de técnica. Não gosto de violência.
Chute na cara não é esporte para mim. Aquilo é assassinato. Dizem
que o boxe é violento. E aquilo?
Como você está lidando
com o Mal de Alzheimer?
Não tem nada de Mal de Azar (Mal de
Alzheimer). Minha mãe morreu com 89 anos com Mal de Azar. E todas
as irmãs dela têm Mal de Azar. Vai morrer tudo com isso. O médico
falou que os filhos da minha mãe são propícios a ter, mas não que
eu tenha. Só depois dos 60 anos pode dar esse problema. Eu estou
bem, graças a Deus. Eu tenho é muita safadeza
(risos).
Faz 12 anos que você
parou de lutar. Você é reconhecido nas ruas?
Onde eu chego é uma festa, todo
mundo me reconhece. Querem fazer foto, querem autógrafo. Prefiro
foto porque sou ruim para escrever. Estudei só três anos. Só
aprendi a fazer Maguila, mas faço bonito (pede papel para escrever
o nome). É um desenho bonito. Só aprendi a fazer isso aí. Minha
mulher ensinou.
Muitos ex-atletas
reclamam da falta de reconhecimento. Você sente
isso?
É que às vezes o cara foi meia-boca,
não foi campeão do mundo igual a eu (sic). Os meia-bocas não têm
reconhecimento mesmo. Os únicos que têm reconhecimento no boxe
foram Éder Jofre, Miguel de Oliveira, Adilson Maguila e o Popó. Num
país tão grande, só tem quadro boxeadores em destaque. De mim, todo
mundo gosta.
Quais são seu
planos?
Quero viver essa vida, não fazendo
nada. Está muito bom. É a vida que pedi a Deus. Vida de aposentado.
É o que sempre quis: receber todo mês sem trabalhar
(gargalhadas).
Comentários